Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

fantasia.

Estava um dia chuvoso, aquela pessoa me olhava e através dos seus olhos era possível ver transparentemente o que pensava. Aquele momento parecia algo mágico. Engraçado porque nunca imaginei que um sonho podesse ser tão real. E foi ai que percebi que aquilo não passava da realidade. Lamentei. A realidade é sempre tão quadrada, por isso lamentei. Lamentei porque esperava que aquele momento fosse um sonho, todo curvilíneo e sem formas definidas. Mas não, era apenas a realidade.
Convenci-me que talvez a realidade não fosse tão ruim assim, afinal, aquele momento não era nem um pouco ruim. Pensei novamente, tentei não lamentar e encarar os fatos. Dormi durante tanto tempo preso no que seria a vida apenas nas fantasias que esqueci que talvez a realidade fosse repleta de fantasias também. Afinal, se não fosse porque aquele momento foi tão mágico?
Decidi então, depois daquele dia, não dormir mais! Afinal, a fantasia pode sim ser tateável!

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

caixinha de música.

Ele.

Nada de especial aconteceu quando nasceu. Não era o primeiro da família, mas parecia ser o último, já que houve algumas complicações no parto e sua mãe ficou impossibilitada de procriar mais. Talvez isso tenha deixado a ele uma culpa. Talvez ele pensasse que a infertilidade da mãe fosse por ele, mas não era.

Com cinco anos, percebeu que o que sua mãe fazia era magnífico e percebeu também que suas três irmãs não tinham, nem de perto, o dom para a coisa. Com cinco anos ele chegou a mãe e disse: “mãe, me ensina a dançar?”. Ali começava a jornada do melhor bailarino que o mundo iria conhecer. Naquele instante algo inusitado acontece. Naquele instante...

Ela.

Naquele instante nasce ela, o mundo parecia ganhar novas notas musicais.

No momento em que ela nasceu, foi um momento mágico que, apesar do parto normal, sua mãe nem sentiu as dores. Na verdade, ela não pode contar suas dores, já que entregou a sua vida para sua filha.

Foi criada pela sua avó, que também era uma pianista muito conhecida naquela cidade pequena. Parava tudo que todos estavam fazendo no momento em que seus dedos tocavam as teclas daquele instrumento. Mas ela não era tão magnífica quanto a jovem que acabara de nascer. Não era mesmo. Aquela menina, com uma beleza simples, sem muitos traços marcantes, parecia uma boneca em uma instante.

Aprendeu a tocar piano muito cedo, graças a sua avó, e sua evolução foi muito grande. Em pouco tempo já roubava a atenção de todos, talvez mais pelo fato da sua beleza singular do que pelo seu talento. Sim, custou um pouco até perceberem que estavam lidando com o mais novo gênio do mundo.

Algo que lhe diferenciava da sua avó era o fato de saber usar bem as palavras, de dar voz ao que o piano não conseguia falar por si só, algo que nem todos conseguiam, mas ela pouco o fazia, preferia deixar que as pessoas sentissem sua emoção apenas pelo tocar das teclas.

Os dois.

Eles estavam diretamente ligados um ao outro. Uma: por prover a música, o outro: por ter a música como sua guia. Era assim que os dois iriam se comportar, ela lhe dando as notas e ele as dançando.

Conheceram-se por acaso, já com idéias formadas sobre o que seriam mais na frente. Já tinham se projetado o que seriam pela frente, mas algo lhes faltava já que ainda não tinham se aproximado. Nele faltava o sentimento verdadeiro de uma música. Nela faltava a verdadeira inspiração.

Suas músicas eram sutis, mas eram fúteis. Arrancavam suspiros de todos e despertavam sentimentos diversos a quem ouvia. Mas para ela algo faltava. Falar do amor pelas suas coisas, pelas artes não estava mais sendo suficiente àquele gênio das notas especiais. Até ela o conhecer.

Sua dança era sutil, seus movimentos eram libertadores, mas eram vazios. Arrancava aplausos de multidões e até recebia flores depois de dançar. Mas para ele algo faltava. Não era música, não conseguia expor realmente o que sentia na falta de notas especiais, feitas por ele e para ele. Até ele a conhecer.

Muito aconteceu depois que eles se conheceram, virgens de idéias e experiências, viveram de tudo que se pode imaginar, mas nunca brigaram. Não tinha por que. Eles se completavam. A junção daqueles dois fenômenos divinos gerou uma explosão indefinida.

“quer casar comigo?” ele pergunta no lugar onde haviam se conhecido, alguns anos depois da conexão da genialidade deles. Ela não responde. Simplesmente vira as costas e sai.

Ele.

Sua vida foi a terra. Como que ela pôde sair sem ao menos dizer sim ou não. Tolo. Talvez não já soubesse que muita coisa boa viria pela frente. Limitou-se ao momento, a palavra que poderia sair dos seus lábios. Mal lembrou que ela não demonstrava seus sentimentos cantando e sim pelas notas que se reproduziam ao tocar magicamente no piano.

Ela.

Já sabia da proposta, conseguiu sentir pelos poros dele que o iria fazer e se preparou. Vestiu seu vestido branco, acendeu velas e apagou as luzes. Aquele era o momento, seria a primeira vez que iria tocar a primeira música que havia composto na sua intenção. Mal sabíamos se era uma marcha ou uma valsa, mas sabíamos que seria algo tão sutil como seu amor por ele. Esperou sua entrada e começou.

Os dois.

Ao sentir as notas se aproximando, ele percebeu que algo havia mudado naquela sua atmosfera. Aquela música, qual seria aquela música que nunca tivera ouvido antes... Não, ele a conhecia, a conhecia muito bem por sinal. Era uma música... Uma história, contava uma história de um sentimento que ele tinha certeza que conhecia. Esperaram as notas terminar e o silêncio tomar conta do lugar. Aquela música silenciosa que rodeava os dois possuía o mesmo compasso, estava na mesma melodia e foi ai que surgiu a resposta. Não, não saiu dos lábios do nosso gênio das notas especiais. Veio da melodia que os dois criaram naquele momento.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

o frasco de validade vencida.

Como diria o pequeno príncipe, somos responsáveis por aquilo que cativamos, mas o que ele esqueceu de dizer é que sempre nos esquecemos disso.

Eu lembro daquele dia, não dos mínimos detalhes ou de como o tempo correu. Só lembro da chuva, que caía forte sobre meus ombros.
A chuva, tão limpa, tão suja. Purificante. Romântica. Machucava da forma que me tocava, mas acredito que a sua intenção era a melhor possível: lavar algo que estava muito abaixo da minha pele.
Tudo que portava naquele momento eram órgãos internos estilhaçados e um frasco de sentimento, que só então me dei conta que a sua validade havia expirado a muito tempo. Era daquele modo que eu estava no momento em que a última gota da chuva me feriu. Minhas vestes, completamente molhadas, colavam ao corpo me dando uma sensação de nudez, todo o desenho da minha estrutura estava exposta naquelo momento, apenas com cores diferentes da minha pele.
Ela estava próxima a mim e eu, um mero garoto cujas malas haviam sido saqueadas certo tempo atrás, sentia aquele arrepio consequente daquela poção do amor, droga. Estava tão cego e ansioso para bebê-la que nem me dei conta de que seu gosto amargo significava que ela havia passado da validade, mas já o tinha feito e aquele veneno já corria pelas minhas veias de forma avassaladora. Não sei de fato o que ela destruiu dentro de mim, se provocou alguma inflamação ou algo do gênero, só sei que hoje eu sinto... quer dizer, não sinto nada. Aquela pessoa. Sim, ela mesma. Tão linda e comovente, parcialmente emocionante e totalmente adimirável, assistia aos últimos momentos em que eu perdia tudo que eu possuia dentro de mim. Mas nem sequer se aproximou de mim. Assistiu tudo de longe sem feições definidas. Do modo que me olhava, me machucava de forma sultil, sentia uma dor horrível que ia passando aos poucos até não sobrar nada. ponto. O efeito da droga vencida finalmente chegou.
Li em algum lugar, que lembrar o nome dele seria a última coisa importante nesse momento, os perigos de tal poção, o volume máximo que deve ser ingerido e os cuidados que devemos ter. - Mas só depois de conhecer tudo por experiência própria, tudo apenas a título de curiosidade. - E uma nota sobre o assunto dizia: 95% de chance de Efeitos colaterais. E cá estou, com a alma pobre sem sentimento, vagando pelo mundo satisfazendo meus prazeres.
A verdade é que nada tenho a reclamar. Vivo muito equilibrado desde que perdi meus sentimentos, vivo dedicado a ambições e prazeres que as vezes nos privamos por sentimentos e o fato é que aquela pessoa simplesmente me ajudou a me sentir bem hoje em dia e, por mais que sua intenção não tenha sido uma das melhores, eu tenho muito a agradecer a ela, afinal, ela me ofereceu o veneno, mas custava a mim aceitar ou não.